Aos 85 anos, Francis Hime vislumbra o infinito no porto seguro do requintado álbum autoral ‘Não navego pra chegar’
Parceria com Ivan Lins é o ponto mais alto da ótima safra do disco arranjado pelo pianista e maestro. Francis Hime Nana Moraes / Divulgação Capa do álbum ...

Parceria com Ivan Lins é o ponto mais alto da ótima safra do disco arranjado pelo pianista e maestro. Francis Hime Nana Moraes / Divulgação Capa do álbum ‘Não navego pra chegar’, de Francis Hime Nana Moraes ♫ OPINIÃO SOBRE DISCO Título: Não navego pra chegar Artista: Francis Hime Cotação: ★ ★ ★ ★ ♬ De todos os grandes compositores revelados ao longo dos anos 1960, dentro do universo de uma música renovadora que viria a ser rotulada de MPB, Francis Hime é o que mais tem mantido a regularidade e o alto nível da produção autoral. Com onze músicas inéditas, Não navego pra chegar – álbum que ancorou hoje, 4 de abril, nos embarcadores digitais, em edição da gravadora Biscoito Fino – confirma a soberania do artista nessa seara, roçando o esplendor do antecessor Hoje (2019) e a exuberância de Navega ilumina (2015), disco lançado há dez anos com título que também surfa no conceito da navegação como metáfora para a caminhada da vida. Aos 85 anos, festejados em agosto de 2024, Francis Hime se mostra atracado em porto seguro em Não navego pra chegar, álbum produzido por Paulo Aragão e arranjado pelo próprio Francis, maestro e pianista de mão cheia. Isso significa que o artista apresenta onze músicas compostas com requinte melódico e harmônico, ao qual se soma a alta voltagem poética das letras geralmente assinadas por Olivia Hime e/ou Geraldo Carneiro. Metade dessa safra merece status de obra-prima do cancioneiro brasileiro do século XXI, sendo que Imaginada se impõe como clássico instantâneo, daquele tipo que vai ganhar regravações à medida que o tempo for passando e a música for ficando conhecida no boca-a-boca. Imaginada é canção que se insinua como blues na gravação que abre o disco. Ivan Lins compôs a primeira parte da música. Francis criou a sequência melódica, em modus operandi recorrente na formatação do repertório inédito, como o artista explica no texto escrito para a edição em CD do álbum Não navego pra chegar, prevista para maio. A letra veio depois, escrita com inspiração por Olivia Hime, autora dos versos em que o eu-lírico vislumbra visão onírica da musa amada. Francis e Ivan dão vozes a esses versos em gravação que inebria ao longo de mais de seis minutos. Parceria de Francis com Zélia Duncan, Chuva cai na sequência como samba-canção sem aura nublada, abrindo alas para Samba pro Martinho ir para avenida na forma de grande samba-enredo à altura do homenageado Martinho da Vila, bamba fluminense de 87 anos. Valorizado pelo canto de Simone, bem harmonizado com a voz de Francis, o samba-enredo do compositor tem versos em que os letristas Geraldo Carneiro e Olivia Hime aludem a sucessos de Martinho em costura fina. Francis Hime Nana Moraes / Divulgação Música-título do álbum, Não navego pra chegar é choro-samba-canção composto por Francis a partir da ideia inicial de Maurício Carrilho e letrado por Olivia Hime com precisão poética que se afina com o canto lapidar de Mônica Salmaso, convidada a dividir com o dono do disco o canto de versos como “Se o horizonte se confunde com o infinito / E se o infinito cabe aqui na minha mão / Decifro estrelas / Versos e sonhos / E a lua nova / Me desvenda o universo”. A trama dos violões do arranjo é pontuada pelo toque do cavaquinho de Luciana Rabello e pelo sopro do clarinete de Cristiano Alves em sonoridade evocativa dos velhos conjuntos regionais. Já Um rio é canção de Francis com Olivia Hime que parece ter nascido vocacionada para a voz grave de Dori Caymmi pelos versos banhados por águas de um Brasil mais profundo e interiorano. Dori dá banho como intérprete. Já Olivia recita versos no meio da faixa, de introdução de aura clássica. Uma das duas músicas gravadas sem a voz de Francis Hime, Tempo breve é valsa-canção amarga de mágoas que tem Zélia Duncan como solista. Com o nobre D.N.A. melódico de Francis, a música é parceria póstuma do compositor com Bráulio Pedroso (1931 – 1990) – escritor projetado nos anos 1960 e 1970 como autor de novelas e peças de arquitetura mais vanguardista – que fecha a exuberante primeira metade do álbum. Na sequência, Imensidão amalgama os estilos melódicos de Francis Hime e Zé Renato, parceiros que dividem o canto da canção letrada pela recorrente Olivia Hime. Música de Francis com letra de Geraldo Carneiro, Shakespereana soa como popular peça de câmara com o toque luxuoso dos violões do Quarteto Maogani. Já Chula chula, dos mesmos parceiros, segue na pisada do baião com o pernambucano Lenine como convidado da faixa situada na nação musical nordestina. Entre uma música e outra da parceria de Francis com Geraldo Carneiro, há colaboração póstuma com o eterno novo baiano Moraes Moreira (1947 – 2020), com quem o compositor carioca já tinha composto a música-título do álbum Brasil lua cheia (2003). A nova antiga parceria é Tomara que caia, salsa cantada por Leila Pinheiro com destreza rítmica, mas sem a vivacidade pedida pelo tema de tempero cubano. No fecho, o álbum Não navego pra chegar recupera a melhor forma com Infinita, primeira e única parceria de Francis com o escritor, cartunista e jornalista Ziraldo (1932 – 2024), apresentada na trilha sonora da peça Belas figuras (1983), mas até então sem registro fonográfico oficial. Olivia Hime divide com Francis o canto dessa música que versa sobre a onda incessante e veloz no mar agitado da vida. É nessa rota poeticamente marítima que, aos 85 anos, Francis Hime vislumbra o infinito no porto seguro do requintado álbum Não navego pra chegar.